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silviowrote:
O horror das guerras torna compreensível a busca de explicações “racionais” para os conflitos coletivos entre seres humanos. A economia é uma das justificativas preferidas nessas horas. Mas, se questões econômicas, de alguma forma, permeiam as carnificinas a que, com freqüência absurda, assistimos, não são elas que, infelizmente, estão na raiz de suas causas. Infelizmente porque seria mais fácil – e muito menos doloroso – jogar para algo “externo” a culpa pela irracionalidade e a estupidez das guerras.
Sim, sim, há interesses econômicos envolvidos. A poderosa indústria de armamentos e suas coligadas clandestinas na distribuição de armas; controle da produção de bens essenciais, como petróleo e alimentos, o que inclui disputas territoriais, e uma série vasta de etecéteras estão aí para oferecer uma pseudo-explicação confortável e ideológica às matanças entre humanos. Acontece que a noção contemporânea de vida nos impõe uma ética. Em nome dessa ética, não podemos, por exemplo, à maneira dos gregos antigos, jogar do alto dos desfiladeiros as crianças nascidas com “defeitos”. As guerras, quaisquer que sejam as suas motivações, por óbvio, quebram, em escala terrível, a ética da vida. Mas, como no caso dos suicidas, que também recusam essa ética, a explicação corriqueira nunca é a verdadeira. Ninguém se mata por amor ou por acumular dívidas impagáveis, para ficar em “razões” comuns de suicídios. Pela simples e suficiente razão de que a maior parte dos humanos que sofre desilusões amorosas ou se encalacra com dívidas não se mata. Observadas por esse prisma, fica claro que as motivações profundas do gesto trágico têm de ser buscadas no interior da alma do suicida. Sugere-se o mesmo diante das guerras. Nem todos os conflitos econômicos, comerciais, territoriais ou políticos resultam em guerras. Mas, onde, além desses ingredientes, há intolerância, não existe saída fora da guerra. Intolerância, eis o nome próprio da causa profunda e verdadeira das guerras e das “soluções finais”. A força que a nutre é a incapacidade de convivência com a diferença e o contraditório. Daí resulta o Mal, assim, com maiúscula. O resto – a política, a economia, a defesa de patrimônios e territórios – tem peso, mas, na essência, é apenas colateral. O atual conflito na Faixa de Gaza não passa de mais dessas demonstrações de intolerância que resultam na barbárie da qual a história da civilização é tão lamentavelmente pródiga. Retrata o terrível triunfo dos genocidas – com a amarga ironia de que envolve populações marcadas por genocídios em sua história. Não há heróis no horror da guerra. Repelir a reação de Israel pela assimetria de forças e pela desproporcionalidade da reação é aceitar que alguma reação israelense faça sentido. Não faz. Israel não é aquela terra prometida de judeus ilustrados, sobreviventes do nazismo, que sonharam com formas socialmente inovadoras de produzir e viver. É um estado militarista, belicoso, infiltrado de fundamentalismo religioso. Mas, invocar a desproporcionalidade da reação israelense a “ataquezinhos de foguetes de fundo de quintal” não é aceitar que, se o poder de destruição das bombas lançadas pelo Hamas fosse maior, a reação seria aceitável? Parece claro que o argumento também não faz sentido. Independentemente de seu poderio bélico, o objetivo declarado do Hamas, um espelho igualmente belicoso e infiltrado de fundamentalismo religioso de seu inimigo, é varrer Israel do mapa.
Jan. 6
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